Depois de quase três décadas, o shoegaze desapareceu e
renasceu com bastante força depois dos anos 2000. Para quem achou que o estilo
iria se limitar apenas a inúmeras cópias de My Bloody Valentine, a surpresa de
diversas novas vertentes oriundas do estilo trouxe renovação e mais vigor ao
gênero, que está se saindo muito bem recentemente. Temos a música eletrônica do
grupo francês M83; a influência J-rock da banda Asobi Seksu e a exploração
noise rock dos japoneses da banda Boris.
Nothing surgiu para mesclar elementos de hardcore ao
shoegaze. A banda não veio do nada, como ingenuamente sugere o nome, que em
tradução livre significa “nada”. O líder Dominic Palermo teve um histórico em
bandas de punk rock na Philadelphia, cidade de origem do quarteto que começou
as atividades em 2011. Palermo foi preso após esfaquear um homem em uma briga.
Ele ficou recluso por dois anos e após este período fundou a banda Nothing, que
dois anos depois assinou um contrato com a Relapse Records, e lançou o primeiro
disco, Guilty Of Everything em 2014.
Se a ideia do shoegaze absorver elementos emocionais e garageiros do hardcore já parece interessante, ela ficou ainda melhor, ao retratar a redenção de Nicky Palermo em um disco melancólico e contraditoriamente pesado. Guilty Of Ererything provavelmente é o disco mais expressivo de shoegaze lançado em 2014. Com vocais sussurrados e repletos de ambiência, camadas de guitarras distorcidas contrastando com ecos e uma carregada linha de baixo, perfeitamente sincronizada com uma bateria de lenhador, que praticamente assegura que o disco soe extremamente pesado.
A contradição que disse anteriormente vem do fato de que,
por mais que a banda soe pesada, os elementos característicos do shoegaze, fazem
com que tudo seja bastante agradável aos ouvidos. “Hymn To The Pillory” é um
exemplo disto. A primeira canção do disco deixa explicita a insegurança
presente em suas letras, mas torna-se confortante ao adquirir peso nas
incessantes viradas de Kyle Kymball, em sua explosiva bateria. Conforto é
exatamente o sentimento que carrego durante toda a audição dos quase quarenta
minutos de disco, que podem soar como uma eternidade em apenas nove faixas.
“Dig” foi o primeiro single lançado antes mesmo do lançamento do álbum. Aqui a banda se aproxima mais de uma sonoridade alt rock, post-hardcore. A faixa seguinte, “Bent Nail” trás ao disco um pouco da influência do punk rock e um estranho clipe onde uma insatisfeita plateia “apedreja” os músicos da banda com vegetais comprados na porta da casa de shows onde o grupo se apresenta. Pela enérgica presença de palco conferida no clipe, percebe-se que a banda diferencia-se do tradicional shoegaze não só pelo peso, mas também pelo comportamento em palco.
Quando “Endlessly” começa, a sensação é que somos
transportados imediatamente para os anos 90. Em um artigo escrito para o siteBuzzfeed, Naomi Zeichner sugeriu que a canção seria como se a banda Built To
Spill tivesse se machucado e derretido em uma poça. Como fã incondicional da
banda citada, consigo concordar em partes, mas ainda diria que o bando de Doug
Martsch ainda teriam derretido camadas e camadas de detritos até atingirem o núcleo
da terra. Uma baita canção, que não parece terminar quando interrompida pela
faixa seguinte “Somersault”. Esta sim é uma típica canção de shoegaze! Todos os
elementos estão lá, e por instantes nos notamos novamente imersos em um
infindável conforto.
As canções seguintes do disco, extremamente bem produzido
por Palermo, Brandon Setta e Jeff Zeigler, deixo para a curiosidade dos leitores
e ouvintes. A banda formada por Palermo (vocais e guitarra), Brandon Setta
(vocais e guitarra), Chris Betts (baixo) e Kimball (bateria) definitivamente merece
atenção, e que, ao que tudo indica, veio para ficar! É praticamente essencial
para fãs de post-hardocore, slowcore, até mesmo emocore, perderem
preconceitos e aderirem a esta excelente banda americana. E claro, para os fãs
de shoegaze que não se deixaram prender pela década de 90!


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