sábado, 21 de fevereiro de 2015

shoegaze! #2 - Nothing


Depois de quase três décadas, o shoegaze desapareceu e renasceu com bastante força depois dos anos 2000. Para quem achou que o estilo iria se limitar apenas a inúmeras cópias de My Bloody Valentine, a surpresa de diversas novas vertentes oriundas do estilo trouxe renovação e mais vigor ao gênero, que está se saindo muito bem recentemente. Temos a música eletrônica do grupo francês M83; a influência J-rock da banda Asobi Seksu e a exploração noise rock dos japoneses da banda Boris.

Nothing surgiu para mesclar elementos de hardcore ao shoegaze. A banda não veio do nada, como ingenuamente sugere o nome, que em tradução livre significa “nada”. O líder Dominic Palermo teve um histórico em bandas de punk rock na Philadelphia, cidade de origem do quarteto que começou as atividades em 2011. Palermo foi preso após esfaquear um homem em uma briga. Ele ficou recluso por dois anos e após este período fundou a banda Nothing, que dois anos depois assinou um contrato com a Relapse Records, e lançou o primeiro disco, Guilty Of Everything em 2014.


Se a ideia do shoegaze absorver elementos emocionais e garageiros do hardcore já parece interessante, ela ficou ainda melhor, ao retratar a redenção de Nicky Palermo em um disco melancólico e contraditoriamente pesado. Guilty Of Ererything provavelmente é o disco mais expressivo de shoegaze lançado em 2014. Com vocais sussurrados e repletos de ambiência, camadas de guitarras distorcidas contrastando com ecos e uma carregada linha de baixo, perfeitamente sincronizada com uma bateria de lenhador, que praticamente assegura que o disco soe extremamente pesado.

A contradição que disse anteriormente vem do fato de que, por mais que a banda soe pesada, os elementos característicos do shoegaze, fazem com que tudo seja bastante agradável aos ouvidos. “Hymn To The Pillory” é um exemplo disto. A primeira canção do disco deixa explicita a insegurança presente em suas letras, mas torna-se confortante ao adquirir peso nas incessantes viradas de Kyle Kymball, em sua explosiva bateria. Conforto é exatamente o sentimento que carrego durante toda a audição dos quase quarenta minutos de disco, que podem soar como uma eternidade em apenas nove faixas.



“Dig” foi o primeiro single lançado antes mesmo do lançamento do álbum. Aqui a banda se aproxima mais de uma sonoridade alt rock, post-hardcore. A faixa seguinte, “Bent Nail” trás ao disco um pouco da influência do punk rock e um estranho clipe onde uma insatisfeita plateia “apedreja” os músicos da banda com vegetais comprados na porta da casa de shows onde o grupo se apresenta. Pela enérgica presença de palco conferida no clipe, percebe-se que a banda diferencia-se do tradicional shoegaze não só pelo peso, mas também pelo comportamento em palco.

Quando “Endlessly” começa, a sensação é que somos transportados imediatamente para os anos 90. Em um artigo escrito para o siteBuzzfeed, Naomi Zeichner sugeriu que a canção seria como se a banda Built To Spill tivesse se machucado e derretido em uma poça. Como fã incondicional da banda citada, consigo concordar em partes, mas ainda diria que o bando de Doug Martsch ainda teriam derretido camadas e camadas de detritos até atingirem o núcleo da terra. Uma baita canção, que não parece terminar quando interrompida pela faixa seguinte “Somersault”. Esta sim é uma típica canção de shoegaze! Todos os elementos estão lá, e por instantes nos notamos novamente imersos em um infindável conforto.

As canções seguintes do disco, extremamente bem produzido por Palermo, Brandon Setta e Jeff Zeigler, deixo para a curiosidade dos leitores e ouvintes. A banda formada por Palermo (vocais e guitarra), Brandon Setta (vocais e guitarra), Chris Betts (baixo) e Kimball (bateria) definitivamente merece atenção, e que, ao que tudo indica, veio para ficar! É praticamente essencial para fãs de post-hardocore, slowcore, até mesmo emocore, perderem preconceitos e aderirem a esta excelente banda americana. E claro, para os fãs de shoegaze que não se deixaram prender pela década de 90!

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