segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Escute! #4 - Björk - Vulnicura

Não sei descrever o som da Björk. Consigo entender a visível influência do post-rock, noise e shoegaze no som de seus conterrâneos do Sigur Rós, por sinal uma de minhas bandas favoritas. Levo numa boa as canções pueris e oníricas dos também islandeses da pequena “orquestra” Múm. Já com a Björk é outra história. Se David Bowie é o camaleão do rock em seus visuais, a cantora islandesa seria a camaleoa devido suas inconstantes facetas musicais.

Se eu citasse apenas essas duas bandas, a Islândia por si só, já seria um prato cheio em excentricidades. Porém, Björk consegue extravasar e muito, todos os padrões musicais e visuais conhecidos por nós, meros mortais. Em atividade desde 1977, quando lançou seu primeiro disco com apenas 11 anos de idade, a cantora apresenta seu nono trabalho, produzido em parceria do venezuelano Arca (Kanye West) e do britânico The Haxan Cloak (The Body).

Na semana passada, ficou explicito na mídia que o novo disco de Björk teve de ser antecipado devido ao seu emancipado vazamento. O disco que estava previsto para o mês de março foi liberado as pressas no dia 20 de janeiro. Outra situação levada a público é que a temática do disco diz respeito a sua recente separação com o artista Matthew Barney. Logo, Vulnicura foi concebido por Björk da maneira mais conturbada possível.

Como eu já disse no começo, não sou a pessoa certa para descrever o som da Björk. Confesso que fiquei meio decepcionado quando ouvi Vulnicura pela primeira vez. O som passou quase despercebido por mim. Parecia apenas que ela estava fazendo o som de sempre, só que dessa vez a ênfase instrumental ficou praticamente toda para os arranjos de cordas. Minha expectativa era de algo mais energizante, algo semelhante ao que ouvi em seu disco anterior, Biophilia, de 2011. Não que seja um disco ruim, pelo contrário, é um ótimo trabalho. Porém, muito melancólico.

O disco possui bons momentos em “History of Touches”, triste canção de despedida onde a cantora é acompanhada apenas por um sintetizador suave e que em certos momentos parece estar com algum defeito. "This is our last time together / Therefore sensing all the moments" (Está é a nossa última vez juntos / Portanto sentindo todos os momentos), desabafa Björk, visivelmente abalada pela separação.

Em “Black Lake”, Björk não abre mão de demonstrar toda a sensibilidade e insegurança provocada pelo término. Dez minutos de constantes mudanças sonoras, onde os arranjos de cordas contracenam com os seus famosos samples de batidas, por sinal, menos evidentes em Vulnicura, que carrega mais melancolia do que os seus demais discos. Björk tira proveito das sensações obtidas com a separação para aflorar um lado aflitivo nunca explorado antes.

A faixa “Atom Dance” conta com os vocais do inglês Antony Hegart que já havia feito colaborações no disco Volta (2007) nas canções “The Dull Flame” of “Desire e My Juvenille”. O pizzicato do arranjo de cordas dá um ar brincalhão à canção, que quase se destoa da melancolia presente em todo o trabalho. A dupla canta: “You are my same hemisphere, hemisphere / The atoms are dancing, dancing / Atoms are laughing at last” (Você é meu mesmo hemisfério, hemisfério / Os átomos estão dançando, dançando / Átomos estão rindo finalmente).

O restante das canções soa de forma bastante despretensiosa. A expectativa por uma canção poderosa como “Army Of Me” vai por água abaixo após os quase sessenta minutos de disco. Vai ver eu não estava no clima, nas ocasiões em que ouvi o disco. Certos álbuns parecem tediosos antes das primeiras dez audições. Depois soam como obras-primas e não hesitamos em pensar “Como não percebi esta canção antes?” ou algo do tipo. Espero que eu possa pensar assim em breve... De toda forma, Vulnicura é um bom disco e um ótimo presente para quem aguardou longos quatros anos sem nenhuma material inédito de Björk.

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