Não sei descrever o som da Björk. Consigo entender a visível
influência do post-rock, noise e shoegaze no som de seus conterrâneos do Sigur
Rós, por sinal uma de minhas bandas favoritas. Levo numa boa as canções pueris
e oníricas dos também islandeses da pequena “orquestra” Múm. Já com a Björk é
outra história. Se David Bowie é o camaleão do rock em seus visuais, a cantora
islandesa seria a camaleoa devido suas inconstantes facetas musicais.
Se eu citasse apenas essas duas bandas, a Islândia por si
só, já seria um prato cheio em excentricidades. Porém, Björk consegue
extravasar e muito, todos os padrões musicais e visuais conhecidos por nós,
meros mortais. Em atividade desde 1977, quando lançou seu primeiro disco com
apenas 11 anos de idade, a cantora apresenta seu nono trabalho, produzido em
parceria do venezuelano Arca (Kanye West) e do britânico The Haxan Cloak (The
Body).
Na semana passada, ficou explicito na mídia que o novo disco
de Björk teve de ser antecipado devido ao seu emancipado vazamento. O disco que
estava previsto para o mês de março foi liberado as pressas no dia 20 de
janeiro. Outra situação levada a público é que a temática do disco diz respeito
a sua recente separação com o artista Matthew Barney. Logo, Vulnicura foi concebido por Björk da
maneira mais conturbada possível.
Como eu já disse no começo, não sou a pessoa certa para
descrever o som da Björk. Confesso que fiquei meio decepcionado quando ouvi Vulnicura pela primeira vez. O som
passou quase despercebido por mim. Parecia apenas que ela estava fazendo o som
de sempre, só que dessa vez a ênfase instrumental ficou praticamente toda para
os arranjos de cordas. Minha expectativa era de algo mais energizante, algo
semelhante ao que ouvi em seu disco anterior, Biophilia, de 2011. Não que seja um disco ruim, pelo contrário, é
um ótimo trabalho. Porém, muito melancólico.
O disco possui bons momentos em “History of Touches”, triste
canção de despedida onde a cantora é acompanhada apenas por um sintetizador
suave e que em certos momentos parece estar com algum defeito. "This is
our last time together / Therefore sensing all the moments" (Está é a
nossa última vez juntos / Portanto sentindo todos os momentos), desabafa Björk,
visivelmente abalada pela separação.
Em “Black Lake”, Björk não abre mão de demonstrar toda a
sensibilidade e insegurança provocada pelo término. Dez minutos de constantes
mudanças sonoras, onde os arranjos de cordas contracenam com os seus famosos
samples de batidas, por sinal, menos evidentes em Vulnicura, que carrega mais melancolia do que os seus demais
discos. Björk tira proveito das sensações obtidas com a separação para aflorar
um lado aflitivo nunca explorado antes.
A faixa “Atom Dance” conta com os vocais do inglês Antony
Hegart que já havia feito colaborações no disco Volta (2007) nas canções “The Dull Flame” of “Desire e My Juvenille”.
O pizzicato do arranjo de cordas dá
um ar brincalhão à canção, que quase se destoa da melancolia presente em todo o
trabalho. A dupla canta: “You are my same hemisphere, hemisphere / The atoms
are dancing, dancing / Atoms are laughing at last” (Você é meu mesmo
hemisfério, hemisfério / Os átomos estão dançando, dançando / Átomos estão
rindo finalmente).
O restante das canções soa de forma bastante despretensiosa.
A expectativa por uma canção poderosa como “Army Of Me” vai por água abaixo
após os quase sessenta minutos de disco. Vai ver eu não estava no clima, nas ocasiões
em que ouvi o disco. Certos álbuns parecem tediosos antes das primeiras dez
audições. Depois soam como obras-primas e não hesitamos em pensar “Como não
percebi esta canção antes?” ou algo do tipo. Espero que eu possa pensar assim
em breve... De toda forma, Vulnicura
é um bom disco e um ótimo presente para quem aguardou longos quatros anos sem
nenhuma material inédito de Björk.

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